Matheus Gonçalves dos Santos
Graduando em Licenciatura - História, 3º Período
Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)
Unidade Divinópolis
Julho/2018
Através do livro de Le Goff, São Francisco de Assis, em seu capítulo II, A procura do verdadeiro São Francisco, aqui será tratado um pouco da trajetória de São Francisco por meio do autor. Nota-se que o texto já começa enaltecendo a figura de São Francisco, que além de seus numerosos milagres, os quais citarei brevemente mais tarde, ele era também uma pessoa incrivelmente boa e sensível, onde desde católicos e protestantes e até mesmo os não-cristãos, falavam bem e foram tocados pelo seu encanto.
FRANCISCO DE ASSIS EM SEUS ESCRITOS:
Um dos problemas encontrados nas escritas de São Francisco era que, em virtude de sua humildade, ele não costumava falar muito de si mesmo nos escritos, então nas suas obras não podemos esperar informações precisas sobre sua vida.
Um traço essencial da personalidade de São Francisco que não podemos deixar de ressaltar é que o mesmo era um grande poeta, tem inclusive um cântico conservado que é provavelmente sua obra-prima, o “Cantico di frate sole ou Cantico delle creature” ou “Cântico do irmão Sol”, vários outros estão perdidos.
Tem uma dificuldade grande dentro da historiografia franciscana que é a seguinte, dentro da Ordem, havia duas tendências, cada uma buscando interpretar em benefício próprio suas palavras e escritos. De um lado os rigoristas, que exigiam dos Frades Menores a prática de uma pobreza total, coletiva e individual. De outro lado, os moderados, convencidos de adaptar o ideal da pobreza à evolução de uma Ordem de Frades cada vez mais numerosa.
O PROBLEMA DAS BIOGRAFIAS:
Os franciscanos das duas tendências começaram a multiplicar bibliografias de São Francisco e isso trazia problemas pois já não se sabia a qual Francisco se apegar, então São Boaventura foi escolhido para escrever a bibliografia original de São Francisco que a Ordem consideraria como a única oficial do santo e, após isso os frades foram proibidos de lerem qualquer outra bibliografia e foi mandada a destruição de todas as outras, o que é um problema para a historiografia. Porém essa “legenda maior” como é chamada, de Boaventura, é considerada quase inútil como fonte da vida de São Francisco, pois é bastante fantasiosa e tendenciosa.
VIDA DE SÃO FRANCISCO:
Batizado João Batista (ou Giovanni di Pietro di Bernardone, depende da tradução), não se sabe ao certo como se tornou o até então inusitado Francisco, porém se têm três hipóteses:
1) Quando batizado pela mãe, seu pai estava em viagem à negócios, quando voltou pode ter dado um novo nome ao filho.
2) Uma homenagem à mãe, que TALVEZ (eu disse talvez, não tinha comprovações disso) se chamava Francesca.
3) E a mais plausível, que, por ser fascinado pela língua francesa e ter uma grande paixão pela mesma, pode ter herdado esse apelido na sua juventude.
Na sua juventude, era um rapaz inquieto e mundano, passava o seu tempo com jogos, ócio, andava sempre na moda e, filho de comerciante, imitava virtudes e defeitos da burguesia comercial. Era um ótimo negociador e também um grande gastador. Inclusive, eram mais pobres que grande parte dos burgueses, porém como tinha esse jeito de gastador e imitava bem os burgueses, acreditavam que era mais. Um grande admirador da poesia e era atraído pela guerra, inclusive supõe-se que tenha participado de lutas de liberdade que tiveram em Assis, inclusive também na construção dos muros da cidade, onde o autor diz que pode ter herdado os talentos para construir capelas e igrejas, como já fez.
A CONVERSÃO:
Normalmente as conversões são imaginadas de uma vez só, mas a de Francisco se estende por quatro ou cinco anos e caminhe através de vários episódios:
O primeiro episódio é que Francisco é abalado por uma doença após ter sido preso na sua luta como soldado, onde fica meses com essa enfermidade que não sabemos muito sobre, mas que é importante destacar uma coisa da personalidade de Francisco. Era um homem bastante doente, até sua morte sofreu com diversas doenças. Então, ele acaba indo à médicos para tentar curar suas doenças e, dando andamento na sua conversão, em primeiro lugar vem a renúncia aos bens materiais. Como amostra disso, o autor cita uma parte onde Assis vê um cavalheiro em roupas rasgadas e lhe dá toda a sua capa.
Francisco, ao ver a igreja local em pedaços, pega o cavalo e várias coisas em casa e vende, inclusive o cavalo. Ao voltar a pé para Assis, seu pai fica furioso, o acorrenta e tudo mais, sua mãe o liberta e aí Francisco procura refúgio com o bispo e depois, em público e na presença do bispo, renuncia a todos seus bens.
Outro episódio importante foi quando Francisco, ao ouvir sinos dos leprosos chegando, que antes sentira repulsa, resolve ir direto à um que estava com frio, cobre o mesmo com sua própria manta e dá um beijo no rosto do leproso, e isso marca a personalidade de Francisco de sempre ajudar aos mais “pequeninos”.
E, falaremos também sobre mais um episódio, onde Francisco diz ter ouvido Deus dizer “Francisco, vai, reforma minha casa que, como vês, virou só ruína”, onde levou ao pé da letra e pega sua colher de pedreiro e reforma a igreja de San Damiano. Após tudo isso, ele escuta na missa sobre dar gratuitamente o que recebe gratuitamente, não usar mais de uma túnica e não usar calçados e então, resolve por fazer, usa não mais que uma túnica e tira seus sapatos ali mesmo, aí se começa a figura de São Francisco, o missionário. São Francisco nasce aí, como também os franciscanos.
FRANCISCO E OS FRANCISCANOS
Francisco consegue onze irmãos, porém por onde passam ocorrem inquietudes e desconfianças, e para cessar com esses problemas, Francisco decide ir com eles para Roma pedir ao papa que aprovasse sua conduta e de seus irmãos.
FRANCISCO E INOCÊNCIO III
Quando Francisco chega ao papa Inocêncio III, o mesmo o trata mal a princípio, vendo Francisco tão mal apresentado, disse para ele ir pregar para os porcos, Francisco então foi a um chiqueiro perto, se lambuzou de lama e voltou ao papa, dizendo que tinha feito o que o papa pediu, que agora era vez do papa o ouvir: O papa refletiu e pediu que voltassem limpos para uma audiência formal, porém não respondeu Francisco de imediato. Então, o papa sonhou com a igreja tombando e que um sujeito pobre, pequenino e aos trapos segurava a igreja nas costas, assim teve a certeza que Francisco era o rapaz e que ele salvaria a igreja, onde verbalmente autorizou Francisco a pregar entre a população desde que obedecesse ao papa.
SANTA CLARA
Francisco consegue ganhar a capela de Porciúncula, porém mesmo se tornando a residência favorita de Francisco, ele a deixa frequentemente para pregar. Francisco então encontra Clara d’Offreducci, que foi a primeira mulher na Ordem, sendo futuramente Santa Clara e também fundadora das Clarissas.
MILAGRES E PEREGRINAÇÕES
Sobre milagres, o texto cita por exemplo que numa viagem que São Francisco fazia para a Síria, clandestinamente em um barco, descobriram ele e seus irmãos e os ameaça de maus-tratos, porém ele se livra “porque o santo aplaca uma tempestade e multiplica as magras provisões de bordo” sendo que os marinheiros estavam famintos.
São atribuídos mais numerosos milagres a São Francisco, como o de curar doentes, convertendo mais pessoas, curando paralíticos, exorcizando possessos e após todos esses milagres, começa a ser famoso e muito mais bem recebido nas cidades e aldeias.
REGRAS FRANCISCANAS
Bom, sendo bem rápido, Francisco criou as suas regras, porém a sua regra era uma regula non bullata, que significa não aprovada pelo papado, sendo assim obrigado a escrever uma outra, que após vários cortes de partes como sobre a sua questão com a pobreza rigorosa e uma parte que autorizava os frades a desobedecerem superiores indignos, ela foi aceita e assim tem origem a sua regra bullata, de 1223, que é utilizada até nos dias de hoje pelos Frades Menores.
(A regra bullata era basicamente modos de vida desses frades, como por exemplo penitências, pregação, o que pode e não pode e etc.).
Francisco fica bem chateado com essa regra toda deformada, porém teve uma conversa com Deus onde o mesmo diz pra Francisco cuidar de sua própria salvação e não se entristecer. A partir daí, passou a se preocupar mais com a própria salvação e foi caminhando serenamente para a morte.
PARA A MORTE
Francisco foi para Porciúncula novamente, para o capítulo geral de junho, o último que assistiu, e segue rumo a seu novo retiro, o de Alverne. Leva consigo apenas alguns dos seus irmãos, recolhendo-se à solidão. Um dia por acaso, abre no Evangelho caindo na narrativa da paixão de Cristo. Num outro dia, em 14 de setembro, teve a sua última visão: um homem com seis asas como um serafim, braços abertos e pés juntos, fixados sobre uma cruz. Após isso feridas sangrentas surgiram sobre as suas mãos e pés, tentou esconder, mas alguns irmãos viram e no seu enterro alguns alegam tê-las visto também.
Desde sempre muito doente, as doenças agravam, o mesmo fica quase cego e sofre de terríveis dores, Santa Clara cuida do mesmo nesse período e Frei Elias, um dos seus irmãos, o convence a ir atrás de um médico do papa, (que provavelmente era um médico muçulmano). Porém de nada adiantou, Francisco vai de mal a pior, rege seu testamento e pede para ser levado de volta pra Assis, mais precisamente em Porciúncula. Francisco é levado à Assis e não Porciúncula, pois era comum roubar cadáveres de santos e relíquias deles também, e Assis era mais fortificada, porém Francisco não se sente bem lá e consegue finalmente ser levado à Porciúncula, onde é guardado constantemente por pessoas armadas.
Francisco reproduz a Santa Ceia e, no dia seguinte, recita seu poema Cântico do Irmão Sol, lê o evangelho e pede que o depositem na terra sobre um cilício coberto de cinzas. Um dos Irmãos então, vê a alma de Francisco subir aos céus. Tinha por volta de quarenta e cinco anos quando morreu.
Apenas 2 anos após sua morte, São Francisco é canonizado, tempo incrivelmente rápido tendo em vista que teve Santos que demoraram vários anos para serem canonizados.
CANTICO DO IRMÃO SOL
Altíssimo, onipotente e bom Senhor, a ti subam os louvores, a glória e a honra e todas as bênçãos!
A ti somente, Altíssimo, eles são devidos, e nenhum homem é sequer digno de dizer teu nome.
Louvado sejas, Senhor meu, junto com todas tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, que é o dia e nos dá a luz em teu nome.
Pois ele é belo e radioso com grande esplendor, e é teu símbolo, Altíssimo.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã lua e as estrelas, as quais formaste claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão vento, e pelo ar, pelas nuvens e o céu claro, e por todos os tempos, pelos quais dás às tuas criaturas sustento.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão fogo, por cujo meio a noite alumias, ele que é formoso e alegre e robusto e forte.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã, nossa mãe, a terra, que nos sustenta e nos governa, e dá tantos frutos e coloridas flores, e também as ervas.
Louvado sejas, Senhor meu, por aqueles que perdoam por amor a ti e suportam enfermidades e atribulações.
Benditos aqueles que sustentam a paz, pois serão por ti, Altíssimo, coroados.
Louvado sejas, Senhor meu, por nossa irmã, a morte corpórea, da qual nenhum homem vivo pode fugir.
Pobres dos que morrem em pecado mortal! e benditos quem a morte encontrar conformes à tua santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai todos vós e bendizei o meu Senhor, e dai-lhe graças, e o servi com grande humildade!
Referência Bibliográfica:
LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Tradução de Marcos de Castro. 10ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.












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