Leandro Ângelo Melo
Graduando em Licenciatura - História, 3º Período
Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)
Unidade Divinópolis
Julho/2018
Introdução
A religião nórdica não tinha uma unidade absoluta e apresentava um grande dinamismo. Além disso, como diz o historiador francês Régis Boyer, a religião nórdica não apresentava o conceito tradicional de religião, como fé, adoração ou aração, era uma religiosidade empírica e sem dogmas. Ela era uma religião com uma prática mais rural, mágica e de culto aos mortos ancestrais. A fé não era homogênea em toda a Escandinávia, ela apresentava uma grande descentralização e variava muito de região para região.
É preciso ter cuidado com um dos autores que foi responsável por boa parte da difusão da religião nórdica que conhecemos hoje, Snorri Sturluson (1179-1241). Ele foi um político, historiador e poeta, ele nasceu e viveu na Islândia, na influente família Stulungar. No período em que vivera Snorri (1179-1241), o cristianismo já estava presente na Islândia a quase dois séculos (Palamin, p.4). Por isso é preciso ter em mente que quando ele compilou as Eddas, a religião e mitos nórdicos eram transmitidos de modo oral, e como historiador de seu tempo, o Snorri tentou preservar essa parte da cultura nórdica. Contudo, mesmo tentando fugir da comparação com o cristianismo, ele acabou por interpretar essa religiosidade através de sua visão cristã. Por isso, boa parte das adaptações da religião nórdica na cultura pop podem não ser muito fieis, pois como Snorri Sturluson é a maior fonte sobre assunto, tem-se como consequência uma difusão de uma ótica cristianizada sobre a religião dos povos nórdicos.
O paganismo nórdico
Como já foi dito antes, o paganismo nórdico não era homogêneo, variava bastante de acordo com a região onde era praticado. Além disso, “o paganismo nórdico era de natureza tolerante, sem fanatismos nem adoração extremada” (Langer, 2005, p.57). Uma das funções mais importantes da religiosidade nórdica era a fertilidade-fecundidade. Além disso, pelo fato de ela dar privilégio à magia, isso a caracterizou como uma religião xamânica, que tinha como um de seus principais objetivos obter conhecimento nos mundos sobrenaturais, para descobrir os segredos dos mortos para os vivos.
A família era o centro da comunidade, estreitamente relacionada com a fertilidade-fecundidade, em uma sociedade totalmente rural, de paz e prosperidade. Deste modo, a religião era muito mais baseada no culto do que no dogmático e metafísico, uma religiosidade baseada em atos, gestos e ritos significativos, girando em torno do sacrifício. (LANGER, 2005, p.57)
Assim, a religião nórdica era bem familiar, mais volta para o culto aos ancestrais. Com cada comunidade tendo uma deidade protetora. Além disso, essa religiosidade recebeu várias influências de outras regiões, devido as viagens que os nórdicos faziam.
Mas para entender a religião nórdica é preciso compreender os seus principais aspectos. Dentre eles:
Sacerdócio
Na sociedade nórdica, os sacerdotes não faziam parte de uma ordem separada da população comum, não existia uma separação entre laico e sagrado. Não havia a existência de um sacerdote profissional, a responsabilidade cabia ao rei ou chefe local. Não existia uma “casta” de sacerdotes ou servidores do sagrado. Não existiam ritos de iniciação ou cerimônias de formação de sacerdotes. As mulheres também conduziam sacrifícios, e no caso da Islândia, presidiam templos. Mas em um contexto geral, as mulheres apareciam muito mais nos rituais nas casas e famílias do que nos públicos. O culto tinha um viés bem familiar, por isso era presidido pelo chefe do clã.
Festivais Religiosos
Os festivais religiosos estavam ligados a eventos astronômicos importantes, como os equinócios e solstícios. Se tem registro de três festas principais. A do começo do inverno, que era festejada com sacrifícios humanos, a do solstício de verão, que visava o crescimento da lavoura e as do sumarmál, que objetivavam trazer a vitória.
Espaços Sagrados
A sociedade nórdica não tinha muitos templos, em sua maioria os ritos eram feitos em lugares naturais, que representavam manifestações ou ligações com as forças sobrenaturais. Os ritos também poderiam ser feitos no salão comum de uma fazenda, onde a família se reunia para fazerem sacrifícios e cerimônias familiares.
Concepções de Alma e Espiritualidade
Os nórdicos e germânicos, tinham a concepção de uma alma interna denominada de hamr (forma) e fylgja. O duplo fiel que todo ser humano possui. O hamr é suscetível a sair do corpo, desafiando as leis do espaço e tempo, isso pode ser uma influência do xamanismo. Ele assume uma forma animal quando isso acontece, estando associado aos mitos de lobisomens. A fylgjia é uma entidade sobrenatural (espirito tutelar), geralmente feminina, ligada ao indivíduo e lhe acompanha pela vida toda, sendo visível quando a norte se aproxima. São espíritos tutelares com funções semelhantes à das valquírias.
Não havia noção de “nada” para os nórdicos, essa visão era totalmente estrangeira. A morte não era um termo absoluto nem uma ruptura radical. Mas apenas uma mudança de estado. Morrer era apenas passar ao estado dos ancestrais, com o saber e poder tutelar. Existe uma maneira de retornar, através da reencarnação ou metempsicose, que era limitada ao clã. O fato de perpetuar o nome era também ressuscitar um ancestral, que era relacionado ao ódal, que era o patrimônio indivisível que era transmitido de geração para geração.
Não existia uma divisão clara entre vivos e mortos, não se interrompia a circulação entre um domínio e o outro jamais era interrompida. Os mortos vinham com frequência informar aos vivos sob a forma de aparições e revelações. Não existia uma consciência clara de outro mundo.
Aspectos da Magia entre os Vikings
Uma das principais características da religiosidade nórdica é a recorrência da magia. Principalmente de uma magia fatídica, pois as suas funções são mais do que ofensivas ou defensivas, antes de tudo elas são divinatórias e sacrificiais. A noção de duplo guia a concepção de homem. A entidade humana vive em permanente simbiose com as potências, saberes e com a presença dos ancestrais. Um homem não existe por ele mesmo, mas sim para a participação que ele exerce em uma ordem superior. Desse modo, a magia é o sentimento constante da presença do sobrenatural, ela preside todas as manifestações da existência.
Magia Rúnica
É preciso ter em mente que runas não são signos mágicos, são uma forma de escrita que serve tanto para fins utilitários quanto para fins mágicos. A magia rúnica era especialmente importante, onde cada runa ocupava um efeito especial de feitiço ou mágica. Tinha-se o especialista em runas, que era chamado de Rúna-meistari. Quem mantinha a pratica de gravar runas era da elite social, e isso era um grande privilégio dos membros da aristocracia, os jarls. Também existiram escolas de gravadores de runas. Gravar os utensílios gravados com runas concediam um acompanhamento e proteção para a vida cotidiana.
Referências Bibliográficas:
LANGER, Johni. A Religião Nórdica Antiga: conceitos e métodos de pesquisa. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/329617208/A-Religiao-Nordica-Antiga-conceitos-e-me-pdf>. acesso em 11/07/2018.
LANGER, Johni. Religião e Magia entre os Vikings: Uma Sistematização Historiográfica. Revista Brathair, V. 5, n.2, 2005.
PALAMIN, Flávio Guadgnucci. Edda em Prosa, Snorri Sturlusson e suas Influências Cristãs. Anais do III Encontro Nacional do GT História Das Religiões E Das Religiosidades – ANPUH – Questões teórico-metodológicas no estudo das religiões e religiosidades. IN: Revista Brasileira de História das Religiões. Maringá (PR) v. III, n.9, jan/2011.









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