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Era Viking - Parte II: Danelaw - Escandinavos na Inglaterra

André Alcântara Aguiar
Graduando em Licenciatura - História, 3º período
UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS (UEMG)
Unidade Divinópolis
Julho/2018 

A chamada “Era Viking” se inicia com o ataque dos normandos à Igreja de St Cuthbert no mosteiro de Lindisfarne na costa da Nortúmbria no ano de 793. Este é o marco considerado por ser um dos primeiros relatos de nórdicos saqueando a Europa ocidental. A Igreja era um dos lugares mais sagrados da Bretanha, e não acreditava-se que alguém atacaria um espaço santo da forma que ocorreu naquele ano. Era suposto que ali era um lugar de paz, intocável pela guerra. É dito que um anglo-saxão da época, chamado Alcuino, escreveu a Carlos Magno as seguintes palavras:

Com quase 350 anos em que vivemos nesta terra linda, nunca tal terror como o de agora apareceu na Bretanha, que sofre com uma raça pagã. Nem pensado que tal incursão do mar poderia ser feita. Eis a igreja de St. Cuthbert, salpicada com o sangue dos sacerdotes de Deus, despojados de todos os seus ornamentos. Os pagãos derramaram o sangue dos santos ao redor do altar. Pisaram sobre os corpos no templo de Deus como esterco nas ruas. (BEZERRA, 2013).

Figura 1. Mosteiro de Lindisfarne (2016)
Fonte: lutyenstrust.org.uk

Acredita-se que o aumento demográfico vivenciado por aqueles povos, em uma terra fria, montanhosa e inóspita para povoar seu interior (viviam basicamente na costa de seus países de origem) incitaram esses povos a procurarem novos meios de riquezas, produtos e terras para ocupar. Apesar dos constantes ataques que se seguiram por toda a Europa ocidental após a pilhagem do mosteiro de Lindsfarene, que marcaram a imagem dos nórdicos como piratas, bárbaros e violentos, em sua maioria eram agricultores, pescadores e comerciantes.

Inicialmente, os ataques aconteciam na primavera e no verão devido às melhores condições climáticas para navegar. No inverno a tendência é que retornassem para suas terras devido ao frio extremo, em que aguardavam a melhora do clima para retornarem às suas atividades. No entanto, como aponta Bloch (1982), com o tempo os normandos decidiram navegar cada vez mais distante e começaram a se reunir em torno de líderes e formar pequenos exércitos, eles também passaram a ficar nos terrenos escolhidos para pilhagem durante o inverno, em vez de voltarem para casa.

 Por volta de 830 os dinamarqueses, que estavam menos isolados dos demais europeus – comparados aos noruegueses e suecos - começam a realizar uma série de ataques às ilhas britânicas, que se tornam mais frequentes com o passar do tempo (Conf: SIMONS, 1971).  Essas ilhas, como aponta Amorin Jr. (201-) se situavam em uma posição estratégica para os navegadores nórdicos, tanto para o comércio quanto para a produção agrícola. Os ataques, cada vez mais, se aperfeiçoavam e suas frotas aumentavam bastante. Como anteriormente já foi citado, os nórdicos passaram a se instalar em determinadas regiões para passarem o inverno, e a partir do momento que fazem isso em 851 na foz do Tâmisa, em Thanet no reino de Kent, assim como fizeram em outras ilhas, começam a estabelecer bases semi-permanentes, que mais adiante serão importantes no momento que passam de saqueadores para colonizadores (SIMONS, 1973). 

Durante os próximos anos, os ataques dinamarqueses destas ilhas-base ou da Escandinávia cresceram violentamente, aumento que não diminui até o fim do século IX. Outro fator que contribuiu para as conquistas dinamarquesas na Inglaterra foi à situação política interna conflituosa, devido a lutas entre os vários reinos e, até mesmo, disputas entre reis dentro deles. O medo gerado fez com que os reinos oferecessem enormes somas em tributos aos normandos, e estes aceitavam de bom grado, pois era uma forma mais fácil de enriquecer e menos arriscada. Apesar de esta prática ocorrer em outros pontos da Europa, em nenhum lugar o danegeld (dinheiro dinamarquês) teve maiores consequências do que nos reinos anglo-saxões (ibidem).  Com os reinos divididos, os reis não socorriam seus vizinhos dos ataques e os chefes escandinavos aproveitavam-se disso.

 Os nórdicos, os dinamarqueses[1] em específico, tomaram ciência desta situação e se aproveitaram dela quando começaram os seus ataques não apenas para pilharem riquezas, mas para conquistarem terras. Em 865 seus ataques se tornam uma real invasão e inicia-se um período de mais de um século de constantes disputas territoriais na Bretanha, hoje conhecida como Inglaterra. Antes os ataques eram realizados por pequenos grupos, mas após o desembarque do que ficou conhecido como “o Grande Exército” em poucos anos os daneses conquistaram grande parte dos territórios da Bretanha que ficaram conhecidos como Danelaw, que em 870 já ocupava mais da metade da Inglaterra (VILAR, 2012; SIMONS, 1971).

Figura 2 - Danelaw
Fonte: http://www.bbc.co.uk. A parte em laranja representa as conquistas dos dinamarqueses. Em amarelo é representado seus países de origem, com rotas  para os lugares que concentraram seus esforços de saques e conquistas.

Quando a conquista dos dinamarqueses se iniciou, as terras anglo-saxônicas eram divididas em sete reinos: Nortúmbria, Mércia, Ânglia Oriental, Essex, Kent, Sussex e Wessex. Destes reinos, apenas a parte sul da Mércia e o reino de Wessex não foram conquistados. No entanto isso quase aconteceu quando Alfredo de Wessex quase sucumbiu à Guthrum, o rei de Danelaw (sendo que já haviam tido outros conflitos e tratados de paz antes), mas Alfredo conseguiu lutar contra o exército dinamarquês e vencê-los na batalha de Ethandun e estabelecer uma trégua duradoura com Guthrum, que foi cristianizado e batizado com o nome de Aethelstan e foi aceito como rei da Ânglia Oriental (SIMONS, 1971, p. 132; VILAR, 2012).

No meio de todo o desespero causado pela investida nórdica, o rei Alfredo, o Grande (849-899), foi a grande resistência contra os dinamarqueses. Bloch (1982) afirma que Alfredo foi um rei sábio e soldado, conseguiu submeter à parte da Mércia que ainda não pertencia aos nórdicos ao seu comando e suas decisões garantiram a sobrevivência de seu reino. Simons (1971) conta que Alfredo foi o “maior governante europeu desde Carlos Magno” (p. 132) e que “todo o povo inglês submeteu-se a Alfredo, exceto aquela parte que se achava sob o poder dos dinamarqueses” (ibidem). Durante todo o seu reinado combateu os invasores escandinavos, já que a trégua conseguida com Guthrum nunca significou que outros invasores não iriam atacar suas terras. Assim, governou com a constante ameaça dos ataques e, ao mesmo tempo, com a ambição de recuperar os territórios unificados em um único governo. Para conter os daneses, Alfredo procurou construir poderosas fortificações chamadas de burhs (VILAR, 2012). 

Após a morte de Guthrum em 890, e mais tarde a morte de Alfredo em 899, a paz conseguida se esgota e os constantes ataques retomam. Eduardo, o Velho (877-924), filho de Alfredo, continua o trabalho de seu pai, construindo os burhs e tentando reconquistar os territórios dos anglo-saxões. Ambos os lados mantiveram constante conflitos e entre vitórias e derrotas Eduardo se manteve firme. Pouco a pouco Danelaw perdia território e à medida que o filho de Alfredo avançava, mais burhs eram construídos. Sem armas de cerco ou renovação de técnicas, os daneses não conseguiam vencê-los. Em 927 a capital nórdica Jorvik (York) foi invadida e tomada pelo filho de Eduardo (ibidem), Athelstan.   No entanto, o último rei de origem escandinava na região, Eric Bloodaxe (Machado Sangrento) só foi derrotado em 954.


Figura 4 - Representação de um burh 
Fonte: http://thedockyards.com

O escritor britânico Bernard Cornwell (1944-) já publicou mais de 40 livros na qual a temática central, geralmente, é a história militar da Inglaterra, misturando ficção e fatos históricos. Mais conhecido por sua excelente trilogia “As Crônicas de Artur”, em que apresenta a famosa lenda do Rei Artur através de um cenário histórico real, após a retração e queda do Império Romana em uma Grã-Bretanha difícil de sobreviver, enquanto há o avanço do cristianismo e a invasão saxônica. Este autor também publicou (e ainda publica) uma série chamada “Crônicas Saxônicas”. O autor aborda as conquistas dinamarquesas nas terras anglo-saxônicas através do personagem fictício Uhtred, dividido entre a cultura dos daneses na qual foi criado, com a lealdade a Alfredo e ao seu povo de origem, os saxões. Já no primeiro título conta as rápidas conquistas dos normandos e a resistência de Wessex.

A história se desenrola através de épicas narrativas de vários acontecimentos e batalhas históricas determinantes para a formação da terra dos anglos, a Inglaterra. Atualmente o autor já lançou dez livros da série, o último com o título brasileiro de O Portador do Fogo foi lançado em 2016 (2017 no Brasil). Cornwell utiliza diversos registros históricos para escrever seus livros e no caso das Crônicas Saxônicas se baseia muito das Crônicas Anglo-saxônicas escritas pelo bispo Asser, que viveu alguns momentos com Alfredo e escreveu sobre sua vida. A narrativa da história é empolgante, interessante e bem fiel às pesquisas históricas, com pouco e pequenos equívocos. Os livros se tornaram uma série de televisão pela BBC América em 2015 e a segunda temporada foi co-produzida pela Netflix em 2017.

Figura 5. Crônicas Saxônicas (6 primeiros livros)
Fonte: http://www.laboratoriosecreto.com

Figura 6. The Last Kingdom - Série BBC
Fonte: http://dinastiageek.com.br
Após a derrota de Eric Bloodaxe a Grã-Bretanha, praticamente, se vê livre dos normandos, com exceção de ataques ocasionais até 980, quando novas tentativas de recuperar o território pelos escandinavos. Além de ataques, tanto para dominar como para conquistar, houve outras práticas para retomarem o poder, como os casamentos entre danes e ingleses ou, novamente, o pagamento de tributos para que os ataques fossem evitados. Em 1013, Svein I da Dinamarca (965-1014) foi para Danelaw e se estabeleceu lá e fez campanhas para aumentar seu território. Após sua morte, em 1014, seu filho Canuto II (995-1035) assumiu seu lugar e após a morte do rei Inglês Ethelred II e, logo após, do seu filho Edmundo em 1014, o trono Inglês ficou vago e Canuto II conseguiu toma-lo para si, sendo o primeiro rei nórdico a assumir o título de rei da Inglaterra, passando a ser chamado de Canuto, o Grande (VILAR, 2012).

Canuto conseguiu reunir sobre o seu poder a Dinamarca, a Noruega, o sul da Suécia e o leste da Inglaterra. No entanto, ao morrer, novamente há um vácuo de poder na qual os anglo-saxões conseguem recuperar o poder da Coroa com a liderança de Eduado II (1042-1066), que estabeleceu como seu herdeiro Haroldo, que era próximo aos dinamarqueses e havia sido coroado rei da Noruega (AMORIN Jr., 201-).

Neste período, no início do século XI, inicia-se o crepúsculo da “Era Viking”. O ano de 1066 é um marco importante na história da Inglaterra e, assim como o início da era dos homens do norte se deu em solo inglês, também se deu a marca de seu “fim”. Os normandos do reino franco – que tinham sua origem com Rollo, um viking chamado a defender as terras do rei Carlos, o Simples em 911 – também marcavam presença na Inglaterra e Guilherme I (1028-1087) introduz um novo sistema de governo no país. No entanto, isso só ocorre após disputar o trono com Harald, herdeiro de Eduardo II. A história da conquista normanda é narrada na Tapeçaria de Bayeux feita por volta de 1070-1080 e possui 69 metros de comprimento e cerca de 50 cm de largura.

Quando Haroldo assume o trono, Guilherme não aceita a sua autoproclamação, pois, como demonstra a tapeçaria, acreditava que ele havia usurpado seu trono por direito, já que Haroldo lhe teria feito juramento anteriormente após lutarem junto (COSTA e STEIN, 2004). Guilherme, então, parte com seu exército para a Inglaterra e em combate derrota Haroldo II em Hastings em 1066. 

Figura 7. A morte de Haroldo 
Fonte: https://www.ricardocosta.com
A conquista normanda finda a chamada “Era Viking”, retirando o poder dos dinamarqueses sobre a Inglaterra e, em seu lugar, assumindo Guilherme, o Conquistador, duque da Normandia, descendente de Rollo, um Viking. Após este período o processo de cristianização dos nórdicos se intensifica e com o tempo alteram seus aspectos que foram tão marcantes no passado. Apesar de neste período serem visto como demônios, assassinos, destruidores e estupradores, em sua era eles impactaram a Europa, não apenas negativamente com a violência e os saques. Os nórdicos chegaram a quatro continentes (África, América, Ásia e Europa), conquistaram terras, descobriram novos territórios, influenciaram no comércio e no reerguimento da Europa ocidental, com seu fortalecimento e fomento econômico, fundaram territórios que, posteriormente, foram importantes para a história da Europa ocidental (SIMONS, 1971). Legaram grandes conhecimentos e tecnologia marítima e influenciaram na mudança da Alta Idade Média para os traços que ela tomou para a Baixa Idade Média, com as cidades e o ressurgimento do comércio.
 
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS

  BEZERRA, Eudes. Assalto a Lindisfarne, 793: o início da Era Viking. In Incrível História. 2013. Disponível em: <https://incrivelhistoria.com.br/periodos/idade-media/mosteiro-lindisfarne-793-era-viking/>. Acesso em: 11/07/2018.
 
AMORIN JR. Elias Feitosa de. Vikings: Guerreiros e Desbravadores. In Almanaque da História Antiga. Ano I, nº 1 (201-). 

BLOCH, Marc. La societé Féodal. Tradução de Emanuel Lourenço Godinho. Liboa: edições 70, 1982. 

COSTA, Ricardo da; STEIN, Débora Rosa. Tapeçaria de Bayeux (c. 1070-1080). Disponível em: <https://www.ricardocosta.com/tapecaria-de-bayeux-c-1070-1080>. Acesso em 01/06/2018. 

SIMONS, Gerald. Os Corsários Vikings. In Os Bárbaros na Europa. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1971 (p. 125 – 145).

VILAR, Leandro. A Saga Viking. In Seguindo Passos da História. 2012. Disponível em: <http://seguindopassoshistoria.blogspot.com/2012/07/a-saga-viking.html>. Acesso em 05/07/2018.



[1] Pode-se considerar os dinamarqueses como os reais invasores. No entanto, é notável que os termos daquela época são bem diferentes dos utilizados hoje, assim como o próprio termo Viking que gera muita discussão a respeito de sua origem. Era comum chamar os homens vindos dos países escandinavos de normandos, nórdicos, ou mesmo pelos seus países de origem. Por isso pode ter se tornado comum na Inglaterra chamar os atacantes do norte de dinamarqueses (danes).


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