Luís Felipe Adame
Graduando em Licenciatura - História, 3º Período
Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)
Unidade Divinópolis
Julho/2018
Considerações sobre o povo viking e sua importância para a formação da Europa, a desconstrução de estereótipos e sua falta de reconhecimento histórico
A Origem dos povos Escandinavos
Nos rincões da península da Escandinávia por volta de 8.000 a.C surgem os primeiros indícios arqueológicos das habitações nórdicas. No final da última era glacial as transformações pelo recuo das geleiras, modificou fortemente os territórios da península, criando florestas planícies, muitos rios e lagos. No início da sua existência estes povos escandinavos formavam diversas tribos seminômades de caçadores-coletores, praticas que de certa forma eram uma necessidade desenvolvida devido a rigorosidade do clima em que viviam.
Por volta de 4000 a.C, surgem os primeiros indícios do desenvolvimento de uma agricultura rudimentar como também da domesticação de animais, que serviriam não só para o alimento e fornecimento de carne como também para o aproveitamento de força de tração. Mesmo com este desenvolvimento a caça e a pesca continuaram como partes fundamentais da cultura nórdica, pois era deste modo que conseguiam peles, para a confecção de vestuário e cabanas. Outro item muito visado era os dentes de morsas que eram usados de diversas formas principalmente para a confecção de ferramentas. Contudo, estas duas práticas com ênfase na pesca eram os principais meios de alimentação destas tribos.
O desenvolvimento das técnicas agrícolas aliado com a domesticação dos animais iniciou um processo de sedentarização, forçado principalmente por grandes fluxos migratórios vindo do interior da península. O estabelecimento de povoamentos fixos levou estes povos a desenvolverem técnicas mais avançadas de construção, utilizando de pedras, madeiras e peles, como também disporem de um maior tempo para se dedicarem à agricultura, no entanto, nos períodos de frio exacerbado as práticas de caça prevalecia sobre as outras. Analisando os vestígios deixados por estes povos na época pode-se encontrar a formação de uma identidade, como ritos funerários e cultos religiosos que os identificavam, isto em pequenos povoamentos formados de algumas casas em uma planície, o que seria o início do processo de povoamento.
Idade do bronze
Os primeiros indícios de metalurgia pelos povos nórdicos se encontram na Dinamarca, por volta dos anos 1800 a.C, feitos principalmente de bronze, no qual se desenvolveu de maneira lenta e gradual principalmente nas regiões da península escandinava, devido ao fato de ser um material importado. As principais fontes destes materiais são encontradas em túmulos, na forma de armas, utensílios domésticos, joias, amuletos, braceletes, cinturões e outros diversos tipos destes materiais. O aperfeiçoamento do trabalho com o bronze criou uma classe de artesão especializados neste tipo de serviço que se empenhavam principalmente na fabricação de materiais e utensílios com esta matéria prima. Este desenvolvimento advindo da era do bronze transformou os povos nórdicos de pequenas sociedades coletivistas em verdadeiros povos tribais, no qual um indivíduo se configurava na figura de líder, com um poder relativamente maior que os outros, baseado necessariamente no acúmulo de riquezas.
Idade do ferro
Aproximadamente no século I a.C houve uma grande revolução tecnológica no antro destes povos, provavelmente vindo da Europa e influenciando os nortistas a substituição do bronze pelo ferro. Este marco foi muito importante principalmente no desenvolvimento da metalurgia e de seu modo de vida, devido ao ferro ser abundante em suas terras diferentemente do bronze que deveria ser importado. Estes aprimoramentos destas técnicas foram significativos para a construção de toda a sociedade nórdica, no mesmo período em que a Europa presenciava o surgimento e queda de diversos “impérios” como as sociedades gregas, Cartago, os macedônios e a próprio avassalador crescimento da Republica Romana e sua transformação em Império. E sobretudo o contato com estas sociedades contribuiu muito para o período conhecido como Era Viking.
O contato com Roma
Com o surgimento da Republica Romana e posteriormente o império houve uma grande expansão deste povo para o oeste da Europa, surgindo zonas de tensões entre os romanos e os bárbaros. Durante boa parte de sua história, quase toda, os romanos se empenharam nesta luta contra os bárbaros e na romanização de vários territórios circundantes aos seus criando zonas tampões onde retiravam espólios, riquezas e escravos. Com o tempo a estratégia romana mudou para uma acomodação destes povos bárbaros em terras da fronteira, formando estados federados, que deviam defender estas terras, pagar impostos a Roma e contribuir para o recrutamento militar.
Com este intercambio e relações comerciais dos romanos com não só os povos germânicos e celtas como também com os escandinavos, surgiu um enorme fluxo comercial entre Roma e os nórdicos. Com esta grande importação de diversas mercadorias como cerâmica, joias, armas, moedas, minérios e tantas outras, os nórdicos experimentaram um nível de riqueza e até então tecnologia nunca visto por eles. Vale ressaltar que indícios encontrados em tumbas e outros sítios comprovam que estes ganhos não vinham por meio de saque e sim propriamente do comercio principalmente de escravos.
Com a desestabilização do grande Império Romano do Ocidente, os povos germânicos começaram uma serie de investidas em seu antigo território para a conquista de terra e riquezas, formando assim vários reinos germânicos nas antigas terras do império. Dando origem ao período conhecido como invasões barbaras, no advento da Alta Idade Média. Os nórdicos que por sua vez haviam experimentado de fato a riqueza, não ficaram para atrás iniciaram uma serie uma serie de invasões em territórios que hoje compreendem as ilhas britânicas o sul da Noruega e da Dinamarca. Iniciando a então chama “Era Viking”. Neste contexto já encontramos grande domínio da parte dos escandinavos das técnicas de construção de barcos, armas e outras tecnologias, que possibilitavam sua tática de pilhagem e possibilitavam navegar pelos mares, além de pescar por estes também e além de tudo deixava ao seu alcance toda a costa da Europa, assim como a exploração de diversos novos territórios.
Ad furore normannorum libera nos Domini: A Era Viking
Para analisarmos a expansão dos povos nórdicos, primeiro temos que ter conhecimento dos principais fatores que levaram a este acontecimento. A península escandinava era uma terra inóspita e muito montanhosa, na qual a sua população vivia principalmente na costa. Devido a um grande aumento populacional, as pequenas áreas habitadas pelos escandinavos se tornava cada vez menor, levando a necessidade de colonização ou ocupação de novas áreas. Os nórdicos eram conhecidos por sua necessidade quase natural de se aventurar levando-os cada vez mais fundo nos mares. Esses diversos fatores aliados à riqueza que haviam conhecido, que não iriam abandonar facilmente, se tornaram os principais fatores que levaram a expansão viking principalmente a ilhas próximas como também a costa europeia e toda a região a leste da Europa.
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Representação da pilhagem ao mosteiro de Lindsfarne.
Fonte: https://sites.google.com
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A era viking se inicia com o ataque e a pilhagem dos mesmo sobre o mosteiro de Lindisfarne, que é relatado em uma crônica anglo-saxã do século VIII. Este é o primeiro indicio histórico que se tem registro deste período. A grande vantagem dos nórdicos provinha de seus poderosos navios que eram considerados o estado da arte na época, contudo suas grandes vitórias levavam tempo até que voltassem para a Escandinávia, forçando-os a se aventurar no mar e colonizar as pequenas ilhas que circundavam sua área, as vezes indo até mais longe, muito mais longe.
Entre os diversos povos nórdicos os mais proeminentes eram os dinamarqueses, tanto em número quanto tecnologicamente, eles habitavam a península projetada da Alemanha e devido a esta proximidade com a Europa eles especializaram em atacar principalmente os territórios francos, ingleses e outros próximo, que com o tempo causaram grandes consequência políticas. Mesmo com as grandes conquistas de Carlos Magno e seu proeminente poder e exercito os nórdicos não se curvaram e continuaram sua política, até mesmo o provocando diversas vezes. Carlos e seu filho Luís conseguiram manter o poderoso Império Franco unido e coeso e por diversas vezes o protegeram das incursões dinamarquesas, porém com a morte do Rei o império se esfacelou e foi divido entre os seus três filhos, o que abriu as portas para os vikings e suas ondas de ataque, durante um grande período o antigo território franco se tornou vários principados, condados e pequenos governos, em alguns momentos retornando a sua coesão inicial, porém nunca mais foi o mesmo, tento se divido finalmente entre a Alemanha e a França.
Depois desta divisão o poder real nunca foi recuperado sendo os reis francos incompetentes e ambiciosos e os nobres do reino cada vez mais entravam em guerras pessoais para afirmar seu poder. Este estado caótico acabou se tornando presa fácil para os nórdicos, que se aproveitavam desta divisão e do enfraquecimento do exército e dos nobres para realizar ataques rápidos onde pilhavam as cidades e fugiam antes mesmo de qualquer tropa pudesse alcança-los. Diferentemente dos antigos bárbaros germânicos que invadiam as terras para domina-las e supersticiosamente poupavam os templos, os escandinavos, por sua vez, procuravam riquezas rápidas que nos mosteiros se representavam em diversos artefatos sacros de ouro e prata sendo o alvo ideal para eles. Com os nobres divididos brigando entre si para dominar propriedades reais e construir castelos para se defenderem a Europa cada vez mais se tornava uma paisagem medieval.
Com o enorme poder ganhado pelos vikings e, como dito anteriormente, sua colonização de ilhas que ficavam próximas aos seus pontos de saque, seus ataques ficavam cada vez mais fácil. Neste tempo caótico e com essa imensa facilidade de atacar e se refugiar em suas colônias as frotas vikings alçaram até o mediterrâneo ameaçando até mesmo a própria cidade de Roma, saqueando e arrasando cada vez mais cidades. Este fato levou uma fuga em massa principalmente de monges carregando suas riquezas para cidades e locais mais protegidos, pois o ataque nórdico ficava cada vez mais comum com seus enxames de barcos.
Com o tempo os vikings descobriram outra tática extremamente lucrativa, o tributo, cobrando quantias em riquezas das cidades para que os mesmos não a saqueassem e a destruíssem. Com isso sem esperanças de ajuda real e dos nobres locais muitas cidades começaram a estocar grande quantidade de dinheiro para pagar este tributo aos escandinavos. No entanto nem todos os líderes destes povos cumpria o acordo recebendo seu tributo e ainda pilhando a cidade. Um dos exemplos mais notáveis foi o cerco de paris, no qual a maior esquadra nórdica da história sitiou a cidade e esta, não tendo chances nesta luta, concordou de bom grado em entregar aos vikings três toneladas e meia de prata. Esta pratica do tributo com o tempo se tornou uma das mais generalizadas em terras pilhadas.
Durante o século IX a nobreza o rei e o papado só perdiam cada vez mais o poder e o prestigio levando passo a passo a Europa para uma massiva anomia. Demoraria pouco menos de um século para que o papado recuperasse sua posição anterior, e os reis sacro germânicos eram tão medíocres que determinado momento os nobres locais decidiram acabar com a dinastia e criar outra para tentar recuperar sua gloria. Por volta do ano 900 o reinante da França, Carlos o Simples, era o mais pobre de dinheiro e poder do que todos os nobres do país, no qual a situação beirava a anarquia geral. Como tudo pode piorar, os ataques dinamarqueses só aumentavam e eles pilhavam livremente devastando a região e saqueando os mosteiros.
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Ilustração. O cerco de Páris 885-886
Fonte: https://br.pinterest.com
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Com a situação extremamente ruim, Carlos teve de tomar uma decisão desesperada e fazer um jogo muito arriscado. O rei então escolheu um dos chefes vikings chamado Rolão e concedeu a ele um título nobiliárquico e terra onde hoje é a Normandia, na esperança que este defendesse suas terras e ajudasse na proteção contra outros vikings além de auxiliar no aumento do poder do rei. A escolha de Rolão foi um pouco contraditória pois ele sem sequer era um dos mais proeminentes vikings, ou grande estrategista ou ao menos um dos grandes saqueadores, no entanto foi uma grande característica que fez o mesmo ser escolhido, talvez das tribos nórdicas ele era o mais adaptável e conseguiria se acostumar bem ao território e a vida de nobre. A medida de Carlos, no entanto funcionou bem, Rolão e seus descendentes foram extremamente fieis aos reis francos e se enquadraram bem do conturbado mundo nobre, no qual se expandiram cada vez mais asa custas da nobreza franca, além de defenderem suas terras e o território contra os ataques de outras tribos vikings.
Normandia, norte da França
Fonte: https://pt.wikipedia.org
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Os vikings que se se estabeleceram nas terras de Rolão ganharam a alcunha de normandos (homens do norte), que posteriormente daria nome a sua terra, e antes mesmo de um século se passar estes povos já haviam se cristianizados e adotados os costumes franceses, como a língua e até mesmo se casando com mulheres locais. Apenas cinco gerações após sua formação, o ducado da Normandia começou a dar resultados com a Ascensão de Guilherme I que viria a ser o conquistador da Inglaterra. E pouco antes do início do século X os nobres haviam conseguido reconquistar boa parte de seu poder e colocar ordem em seus domínios.
A era Viking trouxe várias consequências negativas e positivas para a Europa. A leste do continente os povos suecos haviam constituído diversas cidades ao longo do rio Volga, onde formaram várias bases comerciais e territoriais conquistando vastos territórios, os conquistadores em sua maioria eram grandes chefes vikings ricos e poderosos que devido a expansão procuraram seu lugar no leste europeu. Estes nórdicos se denominavam Rus e com o tempo e a junção dos vários principados locais formaram o Estado Russo, e por volta do século X já era forte e bem consolidado no cenário mundial.
Referências Bibliográficas
SIMONS, Gerald. Os corsários Vikings. In Os Bárbaros na Europa. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1971 (p. 125 – 145).
AMORIM JR, Elias Feitosa de. Vikings: Guerreiros e Desbravadores. In Almanaque da História Antiga. Ano I, nº1 (201-).




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