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Franciscanismo e modelos culturais do século XIII



Jéssica Campos
Graduando em Licenciatura - História, 3º Período
Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)
Unidade Divinópolis
Julho/2018 

Aqui será demonstrado o franciscanismo através de modelos culturais apresentados por Le Goff em seu livro São Francisco de Assis na parte 4 de seu livro. Neste capítulo, Franciscanismo e Modelos Culturais do Século XIII, o autor trabalha com "modelos culturais", afirmando que pretende "preparar um inventário de modelos, ou antes, de conceitos-chave da mentalidade e da sensibilidade comuns do século XIII e buscar definir a atitude dos Franciscanos em face desses modelos na sua perspectiva de evangelização da sociedade leiga" (LE Goff, 2011, p. 94).

Para isso é importante entender o que são modelos culturais.

Primeiramente, para Strauss cultura é "conjuntos integrados de práticas e significados reproduzidos por sujeitos socializados" (apud ROSSI, 2011, p. 45), ou seja, são comportamentos, práticas, saberes que são absorvidos e reproduzidos por uma dada sociedade.

Rossi (Ibidem) mostra que os modelos culturais são, literalmente, esquemas cognitivos que um grupo social compartilha entre si, ou seja, a visão e entendimento do mundo que os membros da sociedade possuem. Esses modelos influenciam o comportamento, os objetivos, as crenças que oferecem coerência dentro de um grupo.

Le Goff (2011) diz que os modelos que ele estudou são, em geral, elaborados por clérigos e nobres, as camadas que dirigem a sociedade e, sendo assim, é difícil chegar aos modelos das camadas sociais populares, rurais ou urbanas. E são esses modelos que ele está interessado, os modelos que ele chama de "comuns" que se apresentam no século XIII.

Le Goff também faz a ressalva que, na Idade Média, não existe um domínio da cultura como o termo se expressa na modernidade, e que os modelos culturais analisados são usados em um sentido amplo.

O autor também diz que em seu capítulo irá trabalhar menos sobre a penitência, a pobreza e a humildade, pois, apesar de serem os mais importantes, já são os mais conhecidos. Além disso, há uma questão que ele aponta ao estudar os modelos que é a diferença do que é idealizado e o que é realmente seguido. Mas que, apesar de haver uma certa dissonância, há certa coerência dos valores franciscanos da teoria na prática do século XIII (LE GOFF, 2011, p. 187).

O autor considerou os seguintes modelos (Conf. LE GOFF, 2011, p. 186):

Modelos ligados à percepção do espaço e do tempo: a cidade, a igreja, a casa, a novidade, a memória.

A cidade - Os franciscanos passavam a maior parte do tempo na estrada e evitavam lugares públicos e grandes cidades para si próprio. Mas a pregação era voltada para as cidades para atingir o público, para eles a pregação tem a tendência de ser para fora, em praças, casas, ruas, nos lugares que tenham pessoas para ouvir. Por isso, não construíam muitas Igrejas, criando seus próprios espaços para espalhar a palavra da salvação.

A igreja – apesar do crescente movimento arquitetônico em relação às igrejas os franciscanos se mantem afastados da construção da sua. Do mesmo modo que as universidades da época do século XIII não possuíam prédios próprios. Criam seu próprio espaço publico para praticar sua função essencial a pregação, para eles é preciso sair para semear.

A casa – de inicio não se esperava que os leigos fossem ate os franciscanos, por isso eles vão ate o lugar onde eles se encontram. Frequentavam as casas dos leigos sem distinção entre nobres, cavaleiros, ricos, pobres. Os frades não possuíam casas e Francisco considerava uma afronta às conhecidas “casas de frades”.

A novidade – a ordem franciscana impressionou numa época que se tornou sensível ao lado positivo. Novos hábitos em relação ao tempo cronológico.

A memoria – em uma época de oralidade, a memoria tem função uma função muito importante. A vida cristã é definida pela memoria, a lembrança de Cristo se torna essencial.

Modelos ligados à evolução da economia: dinheiro e o trabalho.

O dinheiro – quanto a dinheiro o primeiro gesto é a repulsa física, a rejeição da matéria monetária. O irmão que guardasse o dinheiro seria considerado um falso frade seria visto como Judas. O trabalho era visto somete como subsistência: trabalho manual ou mendicância.

O trabalho – era sobretudo como meio de subsistência: trabalho manual ou mendicância. Era aceito materiais como utensílios para os frades artesãos , era excluídos os ofícios desonestos. O trabalho assalariado era extremamente proibido entre os frades.

Frei Gil, para não comer sem trabalhar, ia procurar agua em uma fonte, carregava-a em um cântaro as costa e ia dá-la na cidade em troca de pão.” (p.203).

Modelos ligados à estrutura da sociedade global ou civil: os "estados" (status), os leigos, a mulher, a criança, a caridade (as obras de misericórdia e não apenas a esmola).

Estados - Século XII era visto como muita exclusões (judeus, hereges, leprosos, entre outros). São Francisco e os franciscanos tentam abraçar uma totalidade da sociedade humana.

Os leigos - É feita uma introdução radical na condição dos irmãos leigos em relação às estruturas e as tradições monásticas.

As mulheres – há no franciscanismo no século XIII um lugar para as mulheres que não existe em outros lugares. Para São Francisco a mulher se apresenta como uma imagem de sonho e tem valor de símbolo. Na primeira carta de Jacques de Vitry em 1216 é observado que um grande números de homens e mulheres renunciaram seus bens em nome do amor de Cristo as “irmãs menores”, ocupavam diversas hospedarias e asilos e realizavam trabalhos manuais sem aceitar nenhum lucro.

A criança – pouco se era dado atenção às crianças, os franciscanos foram os primeiros a valoriza-las.

A caridade – uma atitude bem conhecida, a caridade é fundada no amor. Seu maior interesse é a proclamar o amor de Deus ao próximo.

Modelos ligados à estrutura da sociedade religiosa: a prelazia, a fraternidade.

A prelazia - Francisco detesta tudo que é “superior”, o trabalho intelectual será visto com desconfiança por Francisco, a concepção de ciência como tesouro vai contra seu desejo de pobreza e de não propriedade, já que há necessidade da posse de livros, objetos caros e de luxos naquela época.

A fraternidade - A fraternidade é uma indireta à comunidade cristã, coexistindo entre clérigos e leigos nessa comunidade. Um modo de definir a futura ordem como uma família, concepção cara a Francisco.

Modelos ligados à cultura no sentido próprio: o trabalho intelectual e a ciência, a palavra, a língua vulgar, o cálculo.

O trabalho intelectual – como já dito antes São Francisco olhava com desconfiança, quando não a hostilidade. Essa desconfiança se da pois o uso da fonte do saber como orgulho e de dominação, o poder intelectual é algo contrario a vocação da humildade.

A palavra – a escrita de livros só serve para o enfraquecimento da palavra, eles se aproximam da sociedade leiga nesse aspecto, fazendo transmissão de seus saberes somente pela oralidade.

A língua vulgar – a pregação era feita em língua vulgar, e os franciscanos assim como outras ordens mendicantes pregavam utilizando a linguagem vulgar para o entendimento dos leigos, assim se começou o movimento de tradução do latim para línguas vernáculas.

O calculo – Salimbene um homem familiarizado com os números, faz anotações de dias, mês e ano, procura números exatos de mortos e feridos em batalhas, dessa maneira ele evoca o gosto dos franciscanos pela precisão das cifras.

Modelos de comportamento e de sensibilidade: a gentileza, a beleza, a alegria, a morte.

A cortesia - no fim do século XII, os leigos nobres criam o modelo do cavaleiro é um comportamento, uma grande e nobre cortesia, Francisco se interessa por isso na juventude, e quando ele se converte ele não a perde. Na verdade, há uma certa adaptação. Ele tem uma aproximação com a pobreza, mas permanece grande de alma, cortês. Le Goff o compara ainda com um cavaleiro, mas em vez de um cavaleiro da nobreza, Francisco é um cavaleiro de Deus.

A beleza – para os franciscanos a beleza tem uma face dupla, por um lado é uma alta expressão da criação divina, por outro é a sensação da presença divina em todas as coisas é a percepção precisa, entusiasta da beleza dado ao amor de Deus.

A alegria – os prazeres do mundo se manifesta no comportamento alegre, isso aproxima os leigos dos clérigos. De fato a fonte da alegria é também de ordem divina.

A morte – ha uma devoção a cristo morto, a Paixão, na qual se enraíza o episodio dos estigmas de São Francisco.

Modelos ético-religiosos propriamente ditos: a penitência, a pobreza, a humildade, a pureza (o corpo), a oração, a santidade.

A penitência - Francisco teria sido um pioneiro nesse domínio: “O caminho da penitencia era então totalmente desconhecido e considerado uma loucura.” Um dos traços distintivos dos clérigos em relação aos leigos era a abstinência sexual e foi imposta aos frades pela Regula bullata. Desta maneira a fronteira entre o casamento que separa clérigos e leigos se coloca entre os frades e os leigos.

A pobreza – um dos pontos que esclarece a pobreza voluntaria dos franciscanos manteve com os pobres involuntários do século XIII e que sentido dar à expressão “assim como os outros pobres”.

A humildade – seu modelo é a humildade pregada por Jesus. Ideal de igualdade, de fraternidade, remete muito aos conceitos já ditos anteriormente nos modelos da sociedade global ou religiosa.

A pureza e o corpo – segundo Francisco a carne é uma parede que nos separa de Deus, o corpo por mais desprezível que seja é um dom de Deus e é preciso amá-lo.

A oração – não se tem estudos sobre primeiros franciscanos e suas relações com a pratica da oração.

A santidade – para os franciscanos os milagres não constituem a santidade, mas sua manifestação.

Modelos tradicionais do sagrado: o sonho e a visão, o milagre, a bruxaria, o exorcismo.

O sonho e a visão - há muitos textos sobres sonhos durante a Idade Média. Antes do século XIII, parecem que só eram considerados com peso os grandes sonhos ou os sonhos sobre santos. Os santos, geralmente, passam por tentações diabólicas oníricas ou de visões divinas. Há também uma "democratização dos sonhos no século XIII", ou seja, parece que começou a se dar mais importância para sonhos mais diversificados. Os sonhos de São Francisco se constam que não há tantos sonhos com ele igual aos outros santos.  Três tipos de sonhos sobre Francisco:

1º - Sonhos e visões ligados à conversão de Francisco são sonhos ou visões com o próprio Francisco de Assis. Os mais famosos seriam os sonhos do bispo de Assis, do papa Inocêncio III e do próprio São Francisco.

2º - as visões contadas por Thomas d'Eccleston

3º - As visões de Frei Gil

O autor não trabalha direito as características de cada um desses conjuntos, mas concluiu que os sonhos e visões foi um dos meios favoritos de exposição no meio franciscano (esta exposição possivelmente é de sua fé).

Milagre, bruxaria, exorcismo – de acordo com os primeiros Menores, os milagres de São Francisco ganharam grande popularidade entre as multidões medievais, porem o milagre não faz a santidade. Todos os novos modelos, de modernidade os franciscanos insinuavam-se no curso de velhas tradições e de modelos provados.

Referências Bibliográficas:

LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Tradução de Marcos de Castro. 10ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.

ROSSI, Patrícia da Camara. Modelos culturais e o comportamento de retaliação do consumidor. Porto Alegre: UFRGS, 2011. Disponível em: <http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/31236>. Acesso em: 08/07/2018.
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