Em seu livro História universal da destruição dos livros: das tábuas sumérias à guerra do Iraque, Fernando Báez narra uma visão diferente da história. Ele narra, desde o mundo antigo até a atualidade, diversos momentos históricos, assim como por diversos motivos, livros foram queimados com algum objetivo. No prólogo do livro Báez afirma que essa prática já ocorreu motivada por diversas razões, alguns a fizeram na tentativa de se eliminar algum pensamento da época, outros por vergonha daquilo que havia escrito, mas que os principais destruidores o fizeram com o objetivo de conquistar e aniquilar o pensamento livre, e de acordo com ele "os conquistadores atribuíam à queima da biblioteca do inimigo a consagração de sua vitória".
Em nosso artigo sobre China antiga mencionamos que na dinastia Chin, Huang-Ti mandou destruir todos os livros que não fossem os livros técnicos de suas terras. No capítulo 7 da primeira parte do livro de Báez esse evento é retratado. O capítulo é chamado de Shi Huandi, o Destruidor (Shi Huandi e Huang-Ti são a mesma pessoa, há diversas variações nas traduções nos nomes de personagens e famílias chinesas, principalmente quando se trata de China Antiga).
Logo abaixo você poderá encontrar o texto do capítulo de Fernado Báez, que fala tanto sobre a destruição dos livros quanto sobre a ascensão da dinastia Chin (ou Qin, como é utilizado pelo autor) com Huang-Ti, ou Shi Huandi:
Shi Huandi, o Destruidor
Zhao Zheng se tornou em 246 a.C., aos 13 anos, líder de Qin, um dos tantos feudos nos quais estava dividida a China antiga. A pouca idade do rapaz, por certo, entusiasmou os inimigos, mas se tratou de uma apreciação superficial e não de uma avaliação correta. De nariz proeminente, olhos grandes, voz forte e hábitos de guerra, filho da concubina de um comerciante endinheirado, Zhao Zheng não pôde exercer a autoridade até 238 a.C., mas assim que se tornou rei matou o amante da mãe e mandou para o exílio o tutor regente.
Logo
começou a campanha contra o restante dos feudos dominantes e os subjugou um a
um. Acreditava que as causas das intermináveis guerras na região residiam na
condição feudal. Tentaram assassiná-lo, mas, como sempre acontece nesses casos,
fortaleceram sua coragem. Em 230 venceu o último príncipe Han. Em 228 capturou
Hantan. Em 226 conquistou Yan. Em 225 acrescentou ao seu território Daliang,
capital de Wei. Em 223 subjugou Chu. Em 221, Qi, na atual província de
Shandong, foi sua. Em 220, uma campanha feroz o tornou dono de Fujiang e
Guangxi. Já em 215 a.C. era dono de um verdadeiro império, e mandou colocar uma
inscrição em Taizhan: "Juntei todo o mundo pela primeira vez."
Não
hesitou em matar, subornar e destruir todos os opositores, convertendo-se, ao
mesmo tempo, em monarca rico e poderoso. Além disso, era ansioso, ególatra e
nunca benevolente. Um dia decidiu adotar um título universal para declarar sua
majestade. Proclamou-se então Huandi (augusto soberano) e, certo de sua
imortalidade, colocou antes desse título o de Shi (Primeiro), e assim se tornou
Shi Huandi. Seguindo uma tradição, considerou oportuno basear sua dinastia em
três princípios: o número 6, a água e a cor preta.
Assessorado
por seu leal ministro Li Si, um dos discípulos mais inteligentes de Xunzi, da
escola dos legalistas, impôs a doutrina da lei. Medidas, pesos, largura das
estradas, roupas, opiniões, formas de luta e até o idioma, tudo foi
uniformizado. Centralizou o exército, sujeitou muitas atividades econômicas a
controles que implicavam, quase sempre, a conversão dos comerciantes em
agricultores. Criou 36 distritos com administradores cuidadosamente vigiados. O
historiador Arthur Cotterell disse: "Em sua luta para impor a uniformidade
se converteu num dos grandes destruidores da História [...]."
Misterioso,
Shi Huandi nunca se deixava ver, e era impossível saber em qual de seus 260
palácios se encontrava. No fundo, não queria só impressionar, mas reduzir as
chances de seus inimigos. Viajava sem avisar para lugares remotos, em busca do
elixir da imortalidade ou para seduzir virgens. Venerava, com a paixão dos
déspotas, o reinado da ordem.
Com
objetivo militar fez com que o general Meng Tian, à frente de trezentos mil
soldados, unisse em 214 a.C. as antigas muralhas nas frias terras da fronteira
do norte, para assim consolidar uma única Grande Muralha, destinada a conter as
invasões dos xiongnus. Na construção desse bastião militar morreram milhares de
homens, mesmo sem concluí-lo. Foi reformada no século IV e complementada nos
séculos XV e XVI. Também mandou construir uma tumba monumental, perto de
Xianyang, na qual trabalharam setecentos mil homens durante 36 anos. Como
guardas de seu estranho mausoléu foram esculpidos milhares de soldados de
terracota.
Em 213
a.C, ano em que um grupo de homens tentava reunir todos os livros em
Alexandria, Shi Huandi mandou queimar todos os livros, exceto os que tratavam
de agricultura, medicina ou profecia. Entusiasmado por suas ações contra a
casta dos letrados, criou uma biblioteca imperial dedicada a defender os
escritos dos legalistas, defensores de seu regime, e mandou confiscar o
restante dos textos chineses. De casa em casa, os funcionários se apoderaram
dos livros e os queimaram numa pira, para surpresa e alegria de quem não os
tinha lido. O pior delito era esconder um livro, punido com o envio do infrator
para trabalhar na construção da Grande Muralha. Sima Qian (por volta de
145a.C.-85 a.C.), o grande cronista da China, relatou assim o acontecimento:
[...] As
histórias oficiais, com exceção das Memórias de Ts'in, devem ser queimadas.
Menos as pessoas que ostentam o cargo de letrados de vasto saber; aqueles que
no império ousem esconder o Shi King e o Schu King ou os discursos das Cem
Escolas deverão se dirigir às autoridades locais, civis e militares para que os
queimem. Aqueles que ousem dialogar entre si sobre o Shi King e o Schu King
serão aniquilados e seus cadáveres expostos em praça pública. Os que se servem
da antigüidade para denegrir os tempos presentes serão executados juntamente
com seus parentes. [...] Trinta dias depois que o decreto seja promulgado,
aqueles que não queimaram seus livros serão marcados e enviados a trabalhos
forçados [...].
Centenas
de letrados teimosos morreram nas mãos dos verdugos e suas famílias sofreram
incontáveis humilhações. Além disso, essa medida acabou com centenas de
escritos recolhidos em ossos, conchas de tartaruga e tabletas de madeira. Shi
Huandi odiava os escritos de Kongfuzi ou Confúcio e os mandou queimar. Alguns
anos mais tarde, quando limpavam a Biblioteca Central, os serventes descobriram
uma cópia escondida dos escritos de Confúcio. Não é impossível que um
bibliotecário enganasse dessa forma a autoridade constituída.
Em 206
a.C., no entanto, aconteceu um fato alheio aos planos do imperador: a guerra
civil não respeitou a condição venerável da biblioteca, que foi arrasada. Só em
191 a.C., durante a dinastia Han, pôde se reconstituir a memória da China, pois
numerosos eruditos conservaram na memória livros inteiros e, salvo alguns
descuidos que ainda hoje perturbam os sinólogos americanos, puderam recompor a
literatura de seu tempo.
A Perseguição aos textos budistas
A introdução do budismo na China foi acidentada. Os neo-confucianos repeliram o budismo por considerá-lo não-substancial, por sua teoria da renúncia e do vazio. Assim como no passado os confucianos foram perseguidos pelos membros da escola legalista, eles combateram e provocaram o desprestígio do budismo. Em todo caso, o Mahayana, ou Grande Veículo, conseguiu se impor a partir do século I d.C. depois da adaptação de expressões como sangha, ou comunidade de monges, e a revisão das relações de família e da iluminação. A possibilidade de qualquer pessoa poder ser um Budhisattva, ou Salvador, se propagou no espírito popular. Durante esse processo, não foram poucas as vezes em que os textos budistas sofreram confisco e destruição. As perseguições a monges e livros ocorreram quase desde o princípio e se acirraram de 446 a 452, em 574 e ainda Wuzong, em 845, mandou arrasar 4.600 templos e dezenas de escritos.
Na chamada Rota da Seda, na China, descobriu-se, em 1900, uma série de grutas no setor sul de Dunhuang, em Mogao,227 um oásis em meio ao terrível deserto de Gobi, e em seu interior foram encontrados milhares de textos sagrados do budismo, muitos em bom estado, mas outros em fragmentos, pertencentes aos séculos V ao XI. Ao que parece, as grutas começaram a ser pintadas e utilizadas desde 366, quando o bonzo Yuezun escavou, depois de uma visão, a primeira gruta. Ao longo de 1.500 anos, desde os Dezesseis Reinos até a dinastia Yuan, manteve-se esse espírito que levou à idéia da Cova dos Cânones Budistas, uma espécie de biblioteca onde foram guardados cinqüenta mil manuscritos e obras artísticas. Com esse depósito de livros sagrados se pretendeu proteger uma cultura de qualquer possibilidade de censura. O número de grutas do setor sul ultrapassou quinhentas. Nas 243 grutas do setor norte havia livros de sutras em oito idiomas: chinês, tibetano, uigur, sânscrito, xixia, basba, uigur-mongol e sírio. Entre outros, apareceu o misterioso livro Ouro quebrado e alguns fragmentos do livro Sutras originais, de Ksitigarbha, o único exemplar existente.


ConversionConversion EmoticonEmoticon