O mito chinês
da criação do universo é uma verdadeira poesia. Diz a lenda que, no início, não
havia nada além do Dao, o Vazio. E do Dao criou-se um ovo negro, que foi
chocado por dezoito mil anos. Dentro deste ovo, Yin, Yang e Panku
coexistiram em um estado de unicidade por todo este tempo.
Com muita
determinação, Panku rompeu a casca do ovo e foi criado o Universo. Yin, mais
pesado, foi para baixo e formou a Terra. Yang, mais leve, subiu e formou o Céu.
Panku, assustado com sua criação, rapidamente afastou as pernas e ergueu os
braços, segurando Céu e Terra e impedindo que eles voltassem a se unir. Depois
de dezoito mil anos, Panku descansou.
Sua respiração
tornou-se o vento; sua voz, o trovão. Seu olho esquerdo se transformou no Sol e
o direito na Lua. Seu corpo deu origem às montanhas e seu sangue formou os
rios. Seus músculos deram origem à Terra. Sua barba formou os arbustos e mudas
de plantas, e seus pêlos formaram as florestas. Sua pele virou o chão, seus
ossos os minerais e sua medula, todas as pedras preciosas. Seu suor caiu como
chuva. E todas as pequenas criaturas que viviam em seu corpo, como pulgas,
piolhos e pequenas bactérias, foram carregadas pelo vento e deram origem a
todos os dez mil seres, que se espalharam pelo mundo.
A história de
Panku é extremamente significativa quando paramos para pensar em como cada um
de nós é: todos nós estamos, desde o início de nossas vidas, separando o céu da
terra, o bom do ruim, o mau do bom. Todos somos Panku, parados por tempo demais
na mesma posição, tentando evitar que tudo volte a ser uma coisa só – porque
para nossa mente física é impossível algo ser bom e ruim, dependendo apenas do
ponto de vista ou da circunstância na qual examinamos uma situação. Todos nós
somos Panku, e estamos cansados e estar sempre julgando porque este julgamento,
esta separação do do mundo entre bom e ruim, entre incômodo e conforto, entre
certo e errado aniquila a chance das infinitas possibilidades se manifestarem.
Separando o bom do ruim evitamos todo e qualquer confronto com o desconforto,
mas quem nos garante que não é justamente o desconforto de hoje que vai nos
conduzir ao tesouro de amanhã?
Pois é apenas
quando Panku descansa que tudo nasce: as florestas, os mares, as pedras
preciosas e os dez mil seres. É apenas quando deixamos de separar o bom do ruim
e o certo do errado que o Universo tem a possibilidade de se manifestar em toda
a sua glória e abundância. É apenas quando descansamos que se faz a vida.



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